Quando quem devia estar na linha da frente escolhe a omissão, o SNS perde liderança — e a tutela paga a fatura
Há momentos em que a arquitetura do Estado se revela. No SNS, essa revelação está a acontecer à vista de todos: urgências saturadas, equipas exaustas, cidadãos à deriva entre serviços, profissionais em tensão permanente, decisões de vida e morte tomadas com o relógio e a geografia a mandar.
Ninguém exige milagres.
Mas exige-se algo básico numa democracia: liderança visível quando o país está aflito.
Foi para isso que, em 2022, nasceu a Direção Executiva do SNS. Não para criar mais uma camada administrativa, mas para dar ao sistema um rosto técnico que assumisse crises, explicasse decisões e aliviasse o desgaste político — libertando o ministro do fogo diário e protegendo o serviço público de decisões precipitadas ditadas pelo ciclo mediático.
Com Fernando Araújo, esse princípio foi posto em prática. Com virtudes e defeitos, com consensos e fricções, aparecia. Ia aos serviços, explicava reconfigurações, respondia aos sindicatos, assumia erros, defendia opções. Era contestado? Muitas vezes. Mas estava lá. E, num serviço público, estar lá conta tanto como decidir.
Quando António Gandra d’Almeida caiu, sob polémica, abriu-se uma oportunidade rara: escolher alguém com presença e densidade pública para consolidar o modelo. Era o momento de blindar a tutela e reforçar a autoridade operacional da Direção Executiva. Nomes se falaram. Alguns com perfil idêntico ao do primeiro Diretor Executivo mas oriundos da esfera política do Governo.
A escolha, porém, seguiu outro rumo. Com Álvaro Almeida, a liderança técnica tornou-se discreta, quase silenciosa, gritantemente ausente. Não está em causa a competência — que ainda está por provar — está em causa o papel público para o qual a função foi criada.
E a prova disso sente-se onde mais dói: nas instituições. A cada desvio de grávidas, a cada noite em que equipas extenuadas tentam manter serviços abertos, em mínimos que não existem, a cada conferência de imprensa sobre falhas graves, surge sempre o mesmo rosto: o da Ministra da Saúde.
A Direção Executiva, cuja missão era aparecer quando o sistema falha, tem optado, comodamente, por não o fazer. E quando não aparece quem devia assumir, o país olha para quem está visível — e essa pessoa é Ana Paula Martins.
O episódio de Santarém tornou tudo claro. Numa reunião com gestores hospitalares, o diretor executivo foi frontal:
não há margem financeira. 2026 não pode crescer sobre 2025. Nem que para isso a produção não cresça — recorde-se que as listas de espera cresceram 25% num ano — nem que para isso seja preciso conter terapêuticas inovadoras. Uma mensagem realista? Talvez. Difícil? Sem dúvida. Necessária? Possivelmente.
Mas liderança não se exerce apenas dentro de portas.
Depressa, quem teve de explicar, enquadrar e justificar foi, mais uma vez, a ministra. Sozinha. O caso foi tão grave que o próprio Primeiro Ministro teve que vir a público dizer que cortes é uma palavra que não se usa no Governo….
Se a Direção Executiva é a entidade com autonomia, com poder operacional, com a responsabilidade estratégica — e com remuneração ajustada a essa exigência mais de 11 mil euros mensais — então deve ocupar o espaço público que lhe corresponde. Caso contrário, o modelo transforma-se noutra coisa: uma Direção Executiva que decide por dentro e deixa que a tutela seja julgada por fora.
E isso fragiliza o SNS.
Fragiliza a confiança.
Fragiliza a capacidade do Estado falar a uma só voz em momentos críticos.
O país não precisa de figuras omnipresentes, nem de heróis improváveis.
Precisa de consistência. De claridade. De alguém que, perante a pressão das urgências, diga: “estou aqui, e estas são as razões, os números, as prioridades e os limites”.
Quando quem lidera tecnicamente se esconde, o sistema perde referência.
E quando o sistema perde referência, perde confiança.
A ministra não devia estar a carregar sozinha a face pública do SNS.
Porque a Direção Executiva não foi criada para observar — foi criada para assumir.
No setor da saúde, o silêncio não é neutral: é abandono do espaço onde se decide a credibilidade do Estado. O SNS não colapsa apenas por falta de meios. Colapsa quando falta quem os represente, explique e responda por eles.
E, hoje, essa ausência tem um preço — e tem um nome. Álvaro Almeida.
Mas quem paga tem outro nome. Ana Paula Martins.
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